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A presença de Gente de Nação em Terras de Riba Côa e Além Côa na faixa arraiana da Beira e do Além-Douro, decorreu em dois períodos distintos: um medieval e outro moderno. O medieval evidenciou-se a partir dos primeiros reinados portugueses e leoneses, testemunhado nos forais e nos costumes, entre eles os da Guarda, Castelo Rodrigo e Castelo Melhor.
Os Judeus são gente do Rei, participando por vezes inicialmente, no tradicional tipo de povoamento da Reconquista, a semelhança do que acontecia com os Galegos, portugueses vindos do Minho, como os que deixaram o nome ligado a São. Félix dos Galegos, ou com os Francos de Alem Pirinéus, persistindo em Vila Franca das Naves. Este tipo de povoamento, feito com Hebreus, exemplifica-se na freguesia de Jueus, popula de Judeis, no distrito de Viseu, legitimado por F. Johannis em Senhorio do Rei.
A Gente de Nação, isto e, os Hebreus, na Idade Media, viviam em judiarias ou alfamas, bairros isolados onde preservavam a intimidade e tinham a Sinagoga. As mais conhecidas judiarias situavam-se na Guarda, Trancoso, Pinhel, Foz Côa, Castelo Rodrigo, Almeida, Torre de Moncorvo, Mogadouro, Bragança. Este povo tinha uma participação activa na vida local ou regional, exercendo artes e ofícios como sapateiros, alfaiates, carpinteiros, ferreiros, almocreves e mercadores, não excluindo os trabalhos agrícolas. Distinguiam-se também como médicos e, apesar das interdições religiosas, os cristãos preferiam-nos.
A partir de D. Afonso III e D. Dinis, com a intensificação dos mercados e a criação de feiras desempenharam um importante papel cultural e económico. A sua capacidade operatória utilizando os algarismos árabes numa altura em que os cristãos só conheciam os romanos, singularizou-os pela rapidez de cálculo e deu-lhes preferência no serviço régio como cobradores de impostos e rendeiros.
A integração das terras de Riba Côa no território português a partir do Tratado de Alcanizes no reinado de D. Dinis, incrementou a intervenção mercantil e artesanal dos Judeus. Também nos reinados de D. Pedro e D. Fernando aumentou neste território o número de Hebreus com os que fugiam de Castela a vingança do usurpador D. Henrique de Trastâmara, por terem apoiado, durante a guerra civil, o legitimo Rei D. Pedro I de Castela. Guarda e Trancoso foram as povoações que acolheram o maior número.
No reinado de D. João I funcionava em Castelo Rodrigo o Serviço Real de Judeus, que se ocupava dos seus problemas civis. O maior factor do aumento da população judaica, em Riba Côa, ocorreu nos alvores da Idade Moderna em resultado da ordem de expulsão dos Hebreus, publicada pelos Reis Católicos, em 1492. Segundo o Cura de Los Palácios, Andres Bernaldez, terão entrado pela Raia de Portugal, saídos de Ciudad Rodrigo, trinta e cinco mil Israelitas. A maior parte fixou-se nesta região, entre Vilar Formoso e Castelo Rodrigo.
A partir de 1496, com D. Manuel I foi decretada a conversão forcada ou expulsão. As suspeitas de que os conversos, cristãos-novos continuassem a judaizar, deu motivo para a entrada do Tribunal da Inquisição, em 1536, no reinado de D. João III. Este Tribunal tornou a vida dos cristãos-novos num inferno ao longo de quase trezentos anos.
São muitos os testemunhos que aqui atestam a presença judaica. Os casamentos entre cristãos-novos e cristãos-velhos geraram, desde o século XVI, uma mistura étnica que destruiu a pureza de sangue, de tal modo que na actualidade nenhum dos que ali tem raízes pode afirmar que nas suas veias não corre sangue judeu. Em muitas famílias persistiram ate hoje formas de cripto-judaísmo misturada com praticas católicas É...Os testemunhos conservam-se na tradição, orações, lengalengas, ditos, anedotas, historias, praticas alimentares em especial no fabrico do pão ázimo e do borrego da Páscoa e ainda em algumas influencias no folclore musical. Todos estes elementos constituem um valioso legado que urge recolher e divulgar. Curiosamente, conservaram-se núcleos cripto-judeus ate praticamente meados do século XX. Em Torre de Moncorvo funcionou ate 1929, uma Sinagoga, numa casa particular perto da Igreja Matriz... Em Vila Nova de Foz Côa as lutas entre cristãos-novos e cristãos-velhos mantiveram-se até ao séc. XIX. A mais sangrenta ocorreu na altura das invasões francesas, em 1808, provocando mais de uma centena de mortos...
Valioso e o que resta do património material: vestígios da mezuzah, no lado direito da porta de entrada das casas de habitação. Na maior parte dos testemunhos, o sulco vertical foi cortado por outro horizontal, criando o sinal da cruz, a fim de testemunharem aos familiares do Santo Oficio que ali oravam crista convictos. Também nas torças das portas e casas de algumas povoações raianas, como por exemplo em Mata de Lobos, Há símbolos das profissões dos artistas que ali trabalhavam: sapateiros, alfaiates, talhantes
Aparecem também jaculatórias escritas nas fachadas das casas, evocando o Divino Espírito Santo (Vila Nova de Foz Côa) ou símbolos hebraicos provenientes de sinagogas, ou relevos com cenas bíblicas mostrando o sofrimento do povo hebraico (Cidadelhe). Material litúrgico retirado de Sinagogas pode encontrar-se em algumas igrejas. Assim uma parokhet, grande cortinado decorado do tabernáculo, este depositada na igreja da Vermiosa e uma lâmpada do Shabat pode ver-se na sacristia da igreja matriz da Meda. A Mikweh da Sinagoga de Castelo Rodrigo persiste transformada em cisterna.
A presença judaica em Riba Côa deve estar relacionada com o elevado número de tectos mudejares das igrejas de povoações raianas, de que são exemplos Escarigo e Vilar Formoso. Artesãos Judeus terão sido os construtores destes tectos na altura em que chegaram expulsos de Espanha.
Muitas famílias, embora convictamente católicas, conservam memoria das suas origens hebraicas. A família Fonseca, cujos principais pólos se localizam entre Vilar formoso e Almeida, reúnem-se anualmente, evocando o seu passado hebraico e cristão. E celebrada uma missa por alma dos antepassados. Curiosamente, o sacerdote celebrante, o Padre Ezequiel, pároco de Vilar Formoso, considera-se também de ascendência judaica. Tempos depois de terminada a II Guerra Mundial, seu pai foi visitado por Ben Gurion, que localizou aquela família con-siderando-a como ligada a sua e separados desde o período da conversão forçada, na sequência da referida ordem de expulsão dos Reis Católicos.
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