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A TRANSUMÂNCIA E O DOURO
A Transumância e o Douro

 A Transumância e o Douro

"...são as invernadas..., para o vale do rio Douro, indo alguns ate as encostas do Marão, ao Pinhão e ao Tua, onde encontram a folha da vinha como alimento, alem das ervas dos caminhos e dos terrenos maninhos ou terras de pousio, pertencentes as quintas..."

Jorge Dias, Aspectos da vida pastoril em Portugal

Com o estrume destas reses (deixado mas terras onde pernoitavam), os pastores retribuíam, adubando as vinhas e os campos de cereais, oliveiras e amendoais, a consabida estrumação a bardo ou a rabo de ovelha.

Os rebanhos eram principalmente constituídos por ovelhas, as merinas, criadas pelo afamado queijo da Serra e pela lã, que abastecia as fábricas da corda da Serra da Estrela. Na sua composição, entra uma pequena porção de leite de cabra, que alimentava os pastores e os cães, e a flor do cardo, como coalho.

Os pastores vinham das bandas da Estrela e reuniam-se em Vila Franca do Ervedal (Seia), em Vilar Seco (Nelas), onde chegavam animais provenientes de Santa Comba Dão, Carregal do Sal, Canas de Senhorim, rumando a Fragozela (Viseu), enquanto recebiam novos contingentes de Casal Sancho (Santar-Nelas) e Mangualde. Rumavam então, no Inverno, ao Douro e, no Verão,  a Serra de Montemuro.

Constituíam uma parte de um multissecular processo que, pelo menos ate ao século XVIII, atravessava Portugal e Espanha. As canadas espanholas que vinham a Portugal (com cordeles e veredas, de menor dimensão) eram a Soriana (o berço do rio Douro), a Segoviana e a Salamantina, a primeira, que entrava em Badajoz e atravessava o rio Guadiana, em direcção aos Campos de Ourique, a segunda, penetrando por Olivença e a outra, que depois de cruzar os Campos de Castela, demandava as Campinas de Idanha.

Constituem, apesar do excesso das queimadas florestais e da carga de cabeças na Mesta castelhana, um exemplo notável da complementaridade e sustentabilidade entre dois ecossistemas agro-silvo-pastoris, os ricos pastos das terras altas e os restolhos e rebuscos das terras baixas, com beneficios mutuos, traduzidos no fomento da riqueza agrária e da biodiversidade, no controle do impacto ambiental dos rebanhos pelas ausências de seis meses que permitiam a regeneração vegetal e no equilíbrio entre a fauna selvagem e o gado doméstico. As grandes caminhadas dos rebanhos e as dificuldades dos percursos, geraram uma raça de ovinos robusta e forte, por selecção genética, permitindo alimentar as aves necrófagas-britangos e grifos, e os carnívoros selvagens, lobos, linces e raposas, os quais, eliminando as carcassas, os animais mais fracos e portadores de doenças, funcionavam igualmente como factores de selecção natural e agentes sanitários.

Extinta a pratica da transumância, e para os amantes das aves de rapina, aconselha-se ao visitante uma ida ao concelho de Freixo de Espada. Cinta, onde o município apoia um alimentador de abutres, que continuam a nidificar nas Arribas do Douro.

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